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Ah, se Deus entrasse em campo!
Sex, 31 de Julho de 2009 19:05

Marcelo Torres
Se Deus jogasse futebol, seria um artilheiro, matador, impiedoso; não perdoaria zagas nem goleiros adversários. Na busca pela vitória, Deus derrubaria oponentes, cometeria faltas, inclusive penalidades máximas, e atuaria sempre muito ofensivo, chutando bastante, atirando mais que o diabo. 

 

O diabo? Ora, o time do diabo seria um saco de pancadas, só tomaria goleada, seria pior que o Íbis; seu CT seria o quinto dos infernos. Seus atletas seriam pernas-de-pau, cabeças-de-bagre. O time do diabo jamais venceria o time de Deus, nem sequer empataria uma, uma só partida.

Não existe aquele ditado “Se macumba ganhasse jogo, campeonato baiano terminaria empatado”? Pois então, se reza ganhasse jogo, a Seleção do Vaticano seria campeã de todas as edições da Eurocopa e da Copa do Mundo, além, é claro, de ganhar Medalha de Ouro em todas as Olimpíadas.

Se o proselitismo religioso ganhasse jogo, bastaria um clube contratar 22 padres, escalando 11 titulares e 11 reservas (ou 22 pastores) e escolher um cardeal (ou bispo) como treinador. Galácticos? Diabos Vermelhos? Nenhum time jamais ganharia ou sequer empataria com o “Jesus Cristo Futebol Clube”.   

O time titular não precisaria ser, necessariamente, só de católicos. Não! Poderia ser uma equipe religiosamente mista, num 4-3-2-1-1, ou seja, quatro católicos apostólicos romanos, três da Igreja Universal do Reino de Deus, dois do Evangelho Quadrangular, um da Renascer e uma Testemunha de Jeová.

O importante é que o time fosse formado por atletas de Cristo, aqueles que vestem a camisa de Jesus, pessoas boas de rezas e orações, gente com muita fé em Deus, que num jogo seriam capitaneadas por Edir Macedo, em outro o comandante seria Paiva Neto ou o casal Hernandes e num outro seria Bento XVI.       

Qual seria a melhor equipe do Brasil? Bem, com certeza uma das favoritas a ganhar tudo e um pouco mais seria a Universal, que nem precisaria colocar no time a fortuna que coloca para ampliar seu império de templos e seu arsenal de comunicação.

A Universal nem precisaria comprar Kaká junto à Igreja Renascer, nem o zagueiro Lúcio ou outros 'monstros sagrados' do futebol internacional. Bastaria a realização de uma “peneira” no rebanho, selecionando 22 fiéis que fossem craques em fazer orações e pronto, já, já ela seria favorita.      

 

Mas Deus não joga dados, Einstein falou e disse. Deus também não joga futebol, esse esportezinho que está mais para coisa dos diabos. Ele também não joga vôlei, tênis, basquete, peteca ou pingue-pongue. Não joga nada.

Deus não joga, não torce, não faz gol – nem contra nem a favor. O diabo pode até vestir Prada, mas Deus não veste camisa de time. Nem dos coríntios do Parque São Jorge, nem dos cruzmaltinos de São Januário. Santos, Santa Cruz, São Paulo, Santo André, São Caetano, São Raimundo? Nada! Nenhum!

“Deus sabe o que faz”, diz o atleta da equipe que venceu com um gol irregular (de mão). “Graças a Deus, somamos mais três pontos”, ele fala, como um mantra, uma reza, uma ladainha. Indagado sobre a ilegalidade do lance, ele sorri - sem pecado e sem juízo - e ainda diz que foi “a mão de Deus”.  

Maradona fez um gol de mão, na Copa de 1986, contra a Inglaterra, e atribuiu a jogada a Deus. “Foi a mão de Deus”, disse o herege. E o diabo é que dom Diego Maradona ainda criou a igreja Maradoniana. Terá sido, também, com a mãozinha de Deus?

Mas, voltemos ao Brasil, prestando atenção às entrevistas de jogadores. Eles sempre afirmam que Deus está com eles, que olhou ou vai olhar por eles, jogar com eles, decidir a partida a favor deles, mesmo que seja com um escandaloso pênalti inventado pela arbitragem. “Graças a Deus”.

Já teve jogador que, entrevistado após uma derrota, pregou: “Perdemos, graças a Deus”. Dizer “graças a Deus” quando se ganha, ou quando é um bom empate, tudo bem, faz parte do ritual, da liturgia, do evangelho do ludopédio. Mas agradecer a Deus por uma derrota!   

Esse ludopédio é o diabo, só que os dois lados do campo se vêem como a Terra Santa, o solo sagrado, o lado escolhido pela força divina; como Deus é onisciente, onipotente e onipresente, os dois times O vêem fechando o gol, defendendo na zaga, criando na meiota e fazendo gols no ataque.

O adversário? Ora, o adversário que vá pro inferno; que vá para o diabo que carregue e o parta...

Pelo que se vê e se ouve, parece que Deus numa hora está jogando num time e noutra hora está jogando no outro. Quando sai um gol, por exemplo, parece que foi Deus – e não o jogador – que empurrou a pelota para as redes, pois o cara fica apontando os dedos indicadores para os céus.

É como se dissesse a todos que estão ali: “Não, não fui eu que fiz este gol. Foi o cara lá de cima”. E o ritual não é só esse. Há os que se ajoelham, os que se benzem, os que levantam a camisa para fazer o marketing, o merchandising da Santíssima Trindade - Pai, Filho e Espírito Santo. Amém!  

O jogador se benze quando sai do vestiário para o gramado, se benze quando entra em campo, se benze na hora do pontapé inicial, se benze quando perde o gol (e quando faz), se benze até quando é expulso de campo por jogada violenta, por ofensas ao árbitro ou por agressão ao adversário.

No começo do jogo ou no início do segundo tempo, olhe para os goleiros. Eles se benzem, espalmam as luvas aos céus, num ritual ao pé da trave, como se fosse ao pé do altar; mas eles sabem que a pequena área é o inferno, a zona do diabo, um pedaço de chão amaldiçoado.            

E quando acontece uma decisão por pênaltis! Deus é mais! Deus nos acuda. Todo mundo vira religioso desde criancinha. No centro do campo, parece que todos aqueles vinte e dois pecadores se converteram repentinamente em anjos e santos, se abraçando, se ajoelhando, rezando, orando...

Mas o pior é que eles, os atletas, não são os únicos que põem Deus nesse negócio de futebol. Você olha lá para o homem de preto (ou amarelo ou rosa) e vê que ele também faz seu ritualzinho de se benzer, antes do pontapé inicial e após o apito final. Ora, ele também é filho de Deus!

Nas arquibancadas, torcedores juntam as mãos em oração, ou se ajoelham, ou rezam em silêncio, ou fazem promessas. Até na tribuna de imprensa tem gente se benzendo por um bom trabalho, uma boa cobertura e, lá fundo, quem sabe, para que Deus também dê uma forcinha ao seu clube de coração.

De vez em quando você vê ali na área técnica um ou outro treinador com uma correntinha, beijando sua santinha. Mas são exceções. Em geral, treinadores dizem acreditar apenas em trabalho. Parece que não acreditam em Deus. Ou acreditam que Deus sejam eles mesmos.

Eu escrevo essas aleivosias, essas heresias, mas confesso, ajoelhado, me penitenciando, que já fiz lá as minhas preces e promessas a Deus e todos os santos, para que meu time um dia fosse (seja) campeão do Brasil, campeão das Américas, campeão do mundo.

Mas Deus nunca deu bola para meu time. Nem há sinal de que algum dia vá dar.
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* Marcelo Torres, jornalista, pós-graduado em jornalismo literário, baiano, mora em Brasília e é torcedor do Vitória.


 

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