É preciso saber se a sociedade vai assistir ao desmonte da Lava Jato

         



Por Gerson  Brasil
No texto anterior, “O Centrão, de Adversário a salvador da Pátria”, escrito em 07/06, em dado momento faço referência à prisão em segunda instância como sendo o grande embate que se colocaria de frente para o governo e a sociedade, com enormes desafios, posto que envolve uma ruptura de paradigma, até agora não experimentada, entre a sociedade e o poder régio, a vontade dos príncipes (parlamentares, o Judiciário e segmentos sociais), enclausurados nos privilégios originados na tradição.

Não foi preciso esperar muito tempo e eis que explode as tais conversas por aplicativos, obtidas de modo ilícito, entre o juiz Sérgio Moro e o procurador Dallagnoll da força-tarefa da Lava Jato. Os diálogos, logo classificados como aberrantes, comprometeriam seriamente o combate à corrupção. Hoje já se sabe que a invasão dos celulares é muito mais ampla e envolve mais procuradores, juízes e até um jornalista.

Esse movimento não se limita apenas a enfraquecer, emparedar ou desestruturar a Lava Jato, mas também para refutar a prisão em segunda instância. É bom lembrar que a força-tarefa de Curitiba causou um grande incômodo a dezenas de parlamentares, alguns graúdos, como o ex-presidente Lula, que está preso, depois de ser condenado em duas instâncias, mas também ao chamado baixo clero e aos homens honorables.

Mas há também a face econômica dessa luta, e não se trata apenas do dinheiro desviado das companhias, como a Petrobras, ou dos contratos superfaturados das obras importantes e suntuosas, cuja engenharia multiplica o valor do empreendimento por 100%, 200%, e às vezes bem mais do que isso, devido aos adendos contratuais.

Esse é um dos domos da questão, mas temos a soma de milhões de centenas de reais que trafegam pelas decisões do Judiciário, num movimento constante de recursos, em alentada escala, entrelaçados na produção do saber jurídico, assentado em normas que lhes garantem a continuidade, sem interrupção.

A economia posta em movimento pelo sistema do Judiciário consegue fluir de uma só vez uma riqueza em escala monumental e o poder que lhe confere as condições de produção dessa própria riqueza. Uma mudança de paradigma no campo do Judiciário traz consequência não apenas do ponto de vista da maior ou menor rigorosidade da aplicação da Lei, mas afeta a movimentação de capitais. A impunidade, por exemplo, é uma mercadoria valiosa.

E isto acontece, independente do Judiciário estar inserido no campo dos chamados “aparelhos ideológicos do estado”, que agiriam, como quer uma determinada interpretação marxista, de forma a ajudar a manter a ordem vigente, por outros meios que não a violência.

Pensar no Judiciário como promotor da Justiça não encerra o mérito. Num ambiente de relações sociais livres, não dependente da autorização do Estado, grosso modo as instituições produzem saber e riqueza, a filantropia é uma contrapartida e não seu oposto. No mundo de Alice do esquerdismo, as instituições produzem bens sociais, de conformidade com as aspirações do “povo”.

O movimento que tenta estabelecer o descarrilhamento da Lava Jato, incluso a segunda instância, não se dá na forma como concebemos a guerra, que está presa à conquista de território e obtenção de vantagens econômicas, e em alguns casos, a humilhação do inimigo, como fez Júlio César, que entrou em Roma levando o líder dos gauleses, Vercingetórix, dentro de uma jaula, como troféu. Depois de ter conquistado a Gália.

Não se trata de instaurar uma colonização, como fizeram os europeus no novo mundo e nas Antilhas, mas sim de reestabelecer a norma, tal qual ela se impõe abstratamente, mas classista, assim como o Leviatã - o Estado - de Hobbbes.

Moro, a Lava Jato e os procuradores, ao reescreverem as normas tradicionais do Judiciário, liberaram um vulcão, traduzido pela sociedade como combate à corrupção. E isto está se dando sem filtro, porque os partidos políticos em grande parte estão envolvidos em escândalos de corrupção. Restou para a sociedade a rua. Agora é preciso saber se a sociedade vai assistir ao desmonte da Lava Jato, de Moro, à morte da prisão em segunda instância e Lula solto. Quem sabe cantando “é o amor, ô, ôba lá lá, ôba lá lá”.
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Jornalista e articulista. Secretário de redação da Tribuna da Bahia